12 de outubro de 2006

Sonho

“Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca da nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.” (Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego')

Estou dormente e falta-me sentido.
O mundo esqueceu-se de me acordar.
Não sei memórias, o sorriso está perdido
E em pesadelos me perco sem amar.

Penso a alegria de um dia que passou
E as lembranças vão-se pela estreita rua.
Volto aos dias em que o sonho só ficou,
Em que apenas pendente estou na lua.

Já não dizem as palavras um sabor
Ou se em sonhos apenas o provei,
Como se o sonho se tornasse o calor
Num mundo frio em que apenas eu fiquei.

Não sei se era isto que queria
E no silêncio sozinha vou ficar.
Não sei de que me serve o dia
Se só no sonho refúgio sei buscar.

Rita Pacheco
(21/2/2005)

3 comentários:

Anónimo disse...

"...Se só no sonho refúgio sei buscar."

... mas é tão bom sonhar! Não deixes de ter essa capacidade! Eu não deixei!

Um abraço carinhoso. Gosto muito de te ler

Rita disse...

Obrigada, menina_marota. É sempre reconfortante ter a tua visita. Voar é ainda uma das coisas que me fazem viver. Não posso nem quero deixar de o fazer.

Beijo grande,
Rita

Anónimo disse...

Quem tem fé... Voa.
Quem tem poesia na Alma e escreve, voará sempre...

Um Beijo
António Manuel