“Que triste coisa sem vida é este azedume! Se eu pudesse, escreveria com amor.” in O Fim da Aventura, Graham Greene
Sente-se o peito caindo no quebranto
Sobre um som, erro ou olhar.
Gela a alma num toque adormecido,
E sei que se apagou o sentimento.
Os ouvidos cerraram-se aos sons.
Transparentes aos olhos, os sinais…
Vigor do peito que sentiu um dia calor,
Esfria agora num rio que estagnou.
Ignoro as noites, as palavras que escutei
E rogo ao tempo que se lembre de voltar
Para dizer que já não quero ou sinto,
Aquilo que um dia soube amar.
Rita Pacheco
(4/12/2005)
“Meu pensamento é profundo / Estou só e sonho saudade. / E como é branca a paisagem que não sei / Vista de trás da vidraça, / Do lar que nunca terei.” (Fernando Pessoa)
27 de outubro de 2006
20 de outubro de 2006
Borboleta

Pensei que era borboleta
Dançando ao som do vento
E que o verde aceitara
O frágil tom das minhas asas.
Pensei voar gritando que sou livre
Ou que o ar se fundiria c’o que sou.
Imaginei brindar co’a luz um nascimento
Quando fosse pousar em todas as cores.
Todas elas aguardam meu voo
E minhas asas parecem não ceder
Ou quebrar perante o mundo,
Pois sou borboleta e sei voar.
Porque tudo vejo e tudo abraço,
Lançando beijos e sonhos pelo ar!
Oh, não fosse tudo isto mesmo um sonho
De que acordo ainda presa ao casulo.
Não houve ainda o nascimento
Ou o voar naquele azul.
E todo aquele mundo não é meu
Porque não se completaram as asas.
E permaneço crisálida, agrilhoada
Apenas porque penso.
E enquanto penso, não faço,
Não sinto, não sou, não voo.
Rita Pacheco
(3/5/2006)
12 de outubro de 2006
Sonho
“Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca da nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.” (Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego')
Estou dormente e falta-me sentido.
O mundo esqueceu-se de me acordar.
Não sei memórias, o sorriso está perdido
E em pesadelos me perco sem amar.
Penso a alegria de um dia que passou
E as lembranças vão-se pela estreita rua.
Volto aos dias em que o sonho só ficou,
Em que apenas pendente estou na lua.
Já não dizem as palavras um sabor
Ou se em sonhos apenas o provei,
Como se o sonho se tornasse o calor
Num mundo frio em que apenas eu fiquei.
Não sei se era isto que queria
E no silêncio sozinha vou ficar.
Não sei de que me serve o dia
Se só no sonho refúgio sei buscar.
Rita Pacheco
(21/2/2005)
Subscrever:
Mensagens (Atom)