29 de novembro de 2007

Espectro

Espectro caminho nas madrugadas,
Onde a luz ainda não é luz
E faço de mim carne
Num abraço que o dia acorda.

Naquele horizonte desmentido,
Deambulo dedilhando teu corpo,
Vendada pelo vago círculo
Que te cobre o rosto.

E ao esquecer o dia, esqueço quem sou.
Ditoso tempo em que não me observo
(Porque não me avalio).
De manhã… aguardo outra noite.

E espectro regresso às madrugadas
Onde o dia ainda não é dia,
Onde faço de mim gente
Enquanto a luz da janela não me cega.


Rita Pacheco
(21/8/2007)

14 de novembro de 2007

Longínquo

“Good night, good night! Parting is such sweet sorrow, / That I shall say good night till it be morrow.” (in Romeo and Juliet de William Shakespeare)



Encontro-te longínquo
E das paredes sussurram-se
Os segredos em que fomos.
E sei que não és sombra
No entrelaçar das palavras.
Perdi-me nessa voz de cor azul
E no teu peito
Que meu rosto abraçou.
Vejo-te à luz da lembrança
De um beijo que escutei
Na brancura das frias tardes.
Dei-te o rio dos meus olhos
E o som da minha pele.
Recorda-o, longínquo,
E que te beije este som
À enormidade
Do que é a distância
E o silêncio.



Rita Pacheco
(8/3/2006)