8 de outubro de 2015

Saltaste

Saltaste.
Ignoraste o mundo que te comprimia os sentidos e
Saltaste.
Sugaste os metros que interrompiam
Teu corpo e o chão.

Saltaste.
Viraste cor de fogo, dragão voador,
E agora caminhas inerte, invisível,
Livre do vento, livre do tempo
E do silêncio.

Saltaste.
E comprimimos nos nossos corpos
A tua bravura e cobardia,
A culpa do não entendimento.
Saltaste, e mais não somos do que mudez
E incerteza pela névoa que és.

Saltaste
E chegaste ao fim do teu mundo,
Deixando acabado o mundo dos outros,
Neste chão duro e cinzento em que viraste vapor.



Rita Pacheco

Nação de dois

Quero que juntos, tu e eu, formemos uma nação.
Quero que encontres meu peito palpitante em ti.
Quero que me sussurres o sonho em que te vi.
Quero que velejes meu corpo morno e sedento.
Quero que sejas meu barco, meu porto, meu vento.

Quero que juntos formemos uma nação.
Quero verter a minha pele sobre o teu corpo.
Quero trazer o sentimento do pretérito para o presente.
Quero que ser mais do que um torpor.
Quero que afagues meu espírito dormente.

Quero que juntos formemos uma nação independente.
Quero deixar de ser desterrada.
Quero que penses em mim, um pouco somente.
Quero que me arranques deste quase nada.


Rita Pacheco

Vê a terra que habitam teus pés

Vê a terra que habitam teus pés,
O sol que te banha o rosto.
Vê o mundo que te dei sem te ver:

Onde vi azul, frondoso, fértil e perfeito,
Tu mais não viste do que lume, cinza, mania e proveito.
Onde vi sereno, silêncio, perfume e calor
Viram teus olhos guerra, luxúria, inveja e ardor.

Choro por cada criança que dorme com fome
nesse mundo que não mais é o meu,
Choro uma e outra vida que se agora se perdeu.

Choro a fome, a traição, a injúria, o fedor
Choro as balas perdidas,
O sangue que jorra em teu favor.

Vejo o sol que te cobre o corpo,
Vejo a terra que habitas feliz,
E apenas no meu sonho alado
Está o mundo como eu o quis.

Rita Pacheco

Tempo

Doem-me as mãos de agarrar o tempo
Sem ti
No meu ontem, vejo teus olhinhos redondos nos meus.
Mas só existimos ontem.

Vejo-te criança, no tempo em que a vida era viver.
Sem ti, a vida não mais foi vida,
Eu não mais fui eu.
Vejo-te partir, enredado nos braços de tua mãe,
Com choros e perdas, palavras por dizer,
Porque não as sabes, não as entendes.

Vejo-te adolescente, imaginando-te numa angústia que partilhamos,
Vejo o fervilhar da tua música, dos primeiros amores,
Dos calores do aprender,
E sonho viver no regaço do teu pensamento.
Vejo-te sem te ver.

Vejo-te adulto, com teus olhos de quem sabe
Trouxe-te a idade a escolha da distância,
E por isso digo-te, segredando somente ao papel,
Que me gelaram os anos, mas nunca
A lembrança de ti.



Rita Pacheco

Sede

Quero o que não vem na pele,
Quero o som dos dias que
Carregas contigo,
Não sucumbir ao silêncio
Que me verga de dor.
Quero o brilho do teu beijo morno
Em meu peito,
A brancura indelével do teu
Sonho no meu.
Na minha pele quero-te a ti,
E não apenas nas entranhas
Do meu pensamento.
A sede é de ti,
Do fervor das tuas mãos.
Mas permaneço imóvel no devaneio,
Até que eu seja em teus olhos,
Até que existas na minha pele.




Rita Pacheco