11 de dezembro de 2007

Ancião

“Acordo mais uma vez.../Alterei de novo a força do destino/à força dos teus olhos sorrindo.../e quero vê-los./Se as nossas vidas se cruzaram/e nos mantêm à guarda, esperando,/é porque esperar é um passo/e o teu sorriso um avanço./Sorrirás?/Sentes mesmo que consigo retribuir o sonho vendido,/incluso no preço do piano esvoaçante/que se escapou, rasgado o autocolante?/Aguardo-te... e sinto que sempre./Mistura de pressa dura com suspense,/porque por ti só posso ficar/a sonhar que um dia a espera sempre alcance...” ("Aguardo-te" de Rui Diniz)


Os cantos da vida agarram-me,
Pressionam-me os pensamentos,
Quando tu, voz de ancião,
Me fazes olhar para mim.
Vagueias pelos mais recônditos lugares
E na aridez da vida,
Avistas o que pensas ser uma flor,
A flor que a cegueira de mim esconde.

Voz de ancião, és criança de teu mundo,
E comigo, tentas salvar-me de mim,
Despertar esta dormência, derrubar o muro
Que me engole.
E mesmo muralhada no meu tempo,
Sei quem és, escuto-te ao longe.
E ao escutar-te, olho para mim
Com a insegurança de não ver o que vês.

Por mais que me esconda,
Regresso sempre a ti
Como quem regressa a um lar acolhedor
E apenas aos teus olhos,
Apenas nos teus braços… sou flor.


Para o Rui Diniz, meu amigo e mentor.
Um dia, talvez um dia eu venha a ser a flor que vês em mim.


Rita Pacheco
(10 e 11/12/2007)