Doem-me as mãos de agarrar o tempo
Sem ti
No meu ontem, vejo teus olhinhos redondos nos meus.
Mas só existimos ontem.
Vejo-te criança, no tempo em que a vida era viver.
Sem ti, a vida não mais foi vida,
Eu não mais fui eu.
Vejo-te partir, enredado nos braços de tua mãe,
Com choros e perdas, palavras por dizer,
Porque não as sabes, não as entendes.
Vejo-te adolescente, imaginando-te numa angústia que partilhamos,
Vejo o fervilhar da tua música, dos primeiros amores,
Dos calores do aprender,
E sonho viver no regaço do teu pensamento.
Vejo-te sem te ver.
Vejo-te adulto, com teus olhos de quem sabe
Trouxe-te a idade a escolha da distância,
E por isso digo-te, segredando somente ao papel,
Que me gelaram os anos, mas nunca
A lembrança de ti.
Rita Pacheco
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